A acupuntura é uma prática milenar, que faz parte da Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Ela consiste em aplicação de agulhas e sementes de mostarda em tempos específicos do corpo. Estabelecida no Brasil, hoje é reconhecida como terapia integrativa e especialidade médica. Dados do Ministério da Saúde (2023) indicam 2 milhões de atendimentos de acupuntura no SUS anualmente.
Hoje, 23 de março é o Dia Mundial do Acupunturista, data dedicada ao reconhecimento dos profissionais que atuam na área pelos serviços prestados à sociedade. A popularização da acupuntura no Brasil reflete a adaptação de saberes ancestrais chineses em um contexto cultural bem distinto.
A trajetória no Brasil
A introdução da acupuntura no Brasil está ligada às ondas migratórias chinesas. No final do século XIX, trabalhadores vindos da China chegaram ao país, muitos deles vinculados à construção de ferrovias ou ao comércio. Embora pouco numerosos, trouxeram consigo tradições medicinais que incluíam o uso de agulhas, ervas e técnicas de massagem. Na época, essas práticas eram restritas às comunidades asiáticas em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
Um marco simbólico ocorreu em 1908, com a chegada de imigrantes japoneses, que também possuíam tradições de medicina oriental. Apesar das diferenças culturais, esse fluxo ajudou a pavimentar o caminho para a aceitação de terapias alternativas. Ainda assim, até meados do século XX, a acupuntura era praticamente desconhecida fora de nichos étnicos.
A década de 1970 marcou um ponto de virada. Médicos brasileiros começaram a viajar para a China, onde a acupuntura havia sido revitalizada pelo governo como um símbolo da identidade nacional. Um nome destacado foi o do Dr. Wu Tou Kwang, médico chinês radicado no Brasil, que em 1971 fundou a Associação Brasileira de Acupuntura (ABA), pioneira na difusão científica da técnica. Kwang defendia que a acupuntura era uma ciência baseada na anatomia energética dos meridianos.
Paralelamente, a MTC ganhava espaço em universidades. Em 1972, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) realizou o primeiro curso de acupuntura do país, voltado a profissionais de saúde. A iniciativa gerou debates acalorados: enquanto críticos a acusavam de “misticismo”, defensores argumentavam que a eficácia contra dores crônicas e doenças psicossomáticas comprovava sua validade.
A legitimação começou em 1985, quando o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) reconheceu a acupuntura como especialidade para fisioterapeutas. Um grande salto ocorreu em 1995, quando o Conselho Federal de Medicina (CFM) aprovou a acupuntura como especialidade médica. Desde 2001, o Ministério da Saúde incluiu a acupuntura no Sistema Único de Saúde (SUS), inicialmente para tratamento de dor.
Finalmente, em 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), inseriu a acupuntura na rede pública. Atualmente, mais de 5 mil municípios oferecem a terapia no SUS, com ênfase em condições como ansiedade e efeitos colaterais da quimioterapia.
Hoje, o Brasil é um dos líderes globais em acupuntura, com mais de 50 mil profissionais. A prática transcendeu clínicas e hospitais, chegando a presídios, escolas e empresas. Em 2023, a Faculdade de Medicina da USP lançou uma pós-graduação em MTC, uma importante validação acadêmica.